quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Cartas Portuguesas, de Mariana Alcoforado

«CARTAS PORTUGUESAS» NAS LIVRARIAS

Com prefácio de Maria Teresa Horta e tradução do francês de Pedro Tamen, as «Cartas Portuguesas» de Mariana Alcoforado já estão nas livrarias, numa edição da Divina Comédia. Na contracapa, duas citações de relevo. De Stendhal: «É necessário que amemos como a freira portuguesa, com aquela alma ardente cuja marca incandescente nos foi deixada nas suas cartas». De Rainer Maria Rilke: «E acima de tudo, Mariana Alcoforado, aquela criatura incomparável, em cujas cinco pungentes cartas se cartografa pela primeira vez o amor feminino... desenhado como que pela mão de uma sibila.»

MTH, conhecedora da freira de Beja desde o tempo das «Novas Cartas Portuguesas», num prefácio esclarecido e esclarecedor, segue em frente. E parte da paixão da traída Mariana para recriar, ao seu jeito, a «memória sonhada» na vida da enclausurada, já para além das cartas. 

«”Tu, meu cisne”», continuaria a murmurar-lhe em sonho Noël de Chamilly, enquanto ela se alongava nua a seu lado, alva de lua nos ásperos lençóis da estreita cama de religiosa desamada.
Exaltada e exultante.

“Oh, minha ávida entrega sem limites!”, repetia a si própria Mariana, lembrando-o a debruçar-se sobre o seu corpo, acariciando-o, afastando-lhe dos ombros o manto dos seus frisados cabelos negros, que à revelia das madres há muito não cortava, limitando-se a escondê-los debaixo do negrume do véu.

Mas, mal começavam os alvores da aurora e o sonho terminava, a Mariana restava-lhe ainda a ficção das sua cartas, que à medida que os anos passavam, para ela se iam tornando cintilância estelar, na escuridez da sua existência; espelhos diante dos quais se idealiza revendo-se, reinventando-se mais e sempre mais, naquele ardente paixonamento, que aos seus olhos a iam mantendo rosa e chama, brasa luzente, a iluminar as espessas e sombrias paredes do convento da Nossa Senhora da Conceição – simultaneamente leito nupcial e seu túmulo».

Nada do que aqui deixa dito prejudica, antes justificará, essa frase que a co-autora das «Novas Cartas Portuguesas» transcreve da quinta e derradeira epístola ao Cavaleiro de Chamilly, em que Mariana acentua: «Senti que me éreis menos caro que a minha paixão». E expõe Maria Teresa Horta: «Paixão enquanto jogo, através de uma ilusória cortina de bruma, desarrimo perante a inconstância, mas sempre na ambição do contentamento, em palavras de abordar a escrita das emoções e dos sentidos, tessitura literária empolgante, abrasadora, a darem-nos a ver a medida exacta das afeições tumultuadas.» 

Sobre a tradução de Pedro Tamen, a escritora faz questão de sustentar: «Pela primeira vez, é-nos dado a ver a primordial dimensão operática de “Cartas Portuguesas”, num belíssimo e rigoroso trabalho sobre a recuperação da escrita epistolar feminina culta do século XVII. Num primoroso e exaustivo levantamento de linguagem da época».


*Informação Maria Teresa Horta-Página Oficial

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