quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Pandora no Clube: «Lúz à altura», acto III

Lúz à altura
Acto III

Há quanto tempo tinha surgido, esquisita, a ideia do palhaço, estando eu bem acordada?
Um ano? Meses?
Um dia, o tão habilidoso e triste palhaço da minha história pôs maquilhagem a mais. E traiu-se.
Dele eu esperava uma revelação como as que acontecem aos vampiros: em frente ao espelho, ele seria entregue pela falta de imagem refletida. Seria assustador, eu correria, ele se afastaria também, receoso de que eu denunciasse a sua condição.
Mas foi tão diferente!
Eu vi mais naquele dia, vi o que não estava explícito naquele rosto, vi a camada de tinta que uma base queria encobrir.
A clareza veio e reconheci o traço escuro e arqueado de cada sobrancelha, o contorno esbranquiçado e grosso em torno de cada olho, o vermelho vivo das maçãs do rosto, a ponta do nariz que dava um ar perverso, e o abatimento de todo o conjunto. Era um palhaço cansado.
Tinha sido um disfarce, o tempo todo?! Um palhaço disfarçado de companheiro?
Disfarçado me levava pela mão à rua, disfarçado conduzia nosso carro, disfarçado fazia amor comigo antes de chegar o sono, disfarçado fazia o imenso favor de tolerar a minha insegura existência.
Virá hoje a usar esse disfarce? Terá, ao contrário, aberto o guarda-fatos para escolher outra pele, outro disfarce?
Possuirá uma máquina como a minha? Será cuidadoso com ela, a dar-lhe corda para funcionar? Terá um coração vermelho rubi, para legitimamente desejar que alguém esteja à altura dele?

Tiro da carteira uma presilha. Sem importância, rosa pálido e lânguidas flores roxas. Comprimo-a de leve com uma das mãos e com a outra ajeito o cabelo à altura da nuca. Prendo os fios, achando que com essa aparência me tornei parente próxima da costureira de um conto já fora de moda, costureira que trabalha todo o dia e nem por isso consegue comprar uma prenda à filha, a menina Tati. Que lembrança! A precisar de fôlego e com uma heroína dessas à cabeça! E, mais ainda, um artista sonhador a mover cordelinhos!
Estico-me, dou uns passos para o lado, mas não encaro de frente o palhaço que, neste preciso instante, entra na sala.
Respiro fundo.

Se desisti de sentar na plateia, sozinha, para o espetáculo que não tem artista, tem um farsante…
Só mais um pouco, querida, só mais um esforço, e a história termina com o fruto que não vai ser repartido, que não será engolido nem cuspido de volta à terra.
Seu fruto, carne da sua carne, a partir de hoje é livremente seu e aprenderá de ti a ter concentração e a desviar-se de embustes. Aprenderá de cor.
Você atendeu ao convite. No plano do artista estava escrito: “darás teu coração e ele lhe será devolvido, com outra forma, por outras mãos, batendo forte e com uma luz familiar”.
Mãe tem poder. À sombra da árvore de que a mãe toma conta não descansam palhaços, nem em seus galhos pousam predadores que consigam levar mais do que uma vaga recordação do seu fruto.
Enquanto uma mãe representa, vem como se fossem duas, em sonho e com os nervos à flor da pele.
É a missão que a unifica.
O próximo acto precisa ser organizado por sonhadores atarefados e hábeis.


*Retirado do blog Pondera, Pandora - de Betina Ruiz.
Se quiser ler o conto todo, por favor consulte o blog: http://www.ponderapandora.blogspot.pt/
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Betina Ruiz é doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Docente na Escola Superior Artística do Porto - Guimarães.

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