segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Pandora no Clube: «Lúz à altura», acto I

Esta semana vamos publicar um conto de Betina Ruiz. Será em III actos, para ir aguçando o apetite... Espero que acompanhem esta micro história. Estou certo que vos vai deixar curiosos!

Lúz à altura
Acto I

«A que hecatombe sobrevivi?
Dentro de um cómodo que faz lembrar um grande cubo revestido de azulejos, faço-me essa pergunta.
Os tons de verde que vão da água-marinha ao piche parecem-me muito impessoais, o pé-direito é altíssimo e, no entanto, eu não saí de mim ao entrar aqui, eu não me sinto intimidada. Tento estar, apenas.
Às minhas costas, a porta de madeira deslizou com todo o seu peso, mas não fez barulho. Estou presa, obrigada a contemplar. Afinal, o espaço é só um átrio, não um palco para uma surpresa qualquer. O que temer?
Pois.
Entretanto, a pergunta inicial muda pois eu treino e insisto, mas não sei o que é estar apenas, acabo por ser a menina de sempre, a menina que fantasia para poder estar. Pergunto-me, então, se estou neste cenário para atender ao convite de um artista, para viver sob o efeito do ambiente com que ele sonhou. Imagino-o a imaginar, a montar o cubo, plano após plano, e a mandar-me o chamado, até me ver entrar.
São obras dele os três bancos de madeira encostados à parede?
Estou tão cansada que não cedo à tentação de sentar, que estou eu a magicar, então?
Sigo em frente e, quando chego ao banco - e ele está vazio -, permaneço em pé.
Olho para a porta, de novo.
Nem pull nem push, nenhuma aragem pela fresta. Nem uma minúscula linha de luz vinda do exterior.
Há sussurros e ao procurá-los noto um longo balcão. Uma das suas pontas está atrás da linha da porta, protegida por uma coluna. Não enxergo a outra. Talvez esteja atrás de mim, além do limite até onde eu avancei.
São funcionários que sussurram por detrás desse balcão. Parecem trabalhar para que eu me sinta inquieta, enquanto falam entre dentes.
É melhor evitar o ruído. Deve haver muito mais gente corredor afora.
Este corredor terminará?
Mais uma vez esforço-me para estar alienada do clima que minha observação ruidosa criou: começo a repassar item por item o que terei de dizer na próxima sala, a sala que eu não consigo antecipar como é. É mesmo um espanto eu ter reprimido esse discurso durante tanto tempo!
Finalmente, repito em silêncio as orações que sei.
Quero estar comigo na outra sala e se lá eu chegar a falar, farei-o só por mim, só em meu nome, sem levantar bandeiras.
Eu consigo.


Minha hecatombe foi de ordem moral, é importante que eu diga.
O que quero explicar é que eu não cruzei uma linha na rua, a partir da qual vi tudo em ruínas. São os meus nervos que estão em pandarecos e não os edifícios, a sinalética desta vila ou o calçamento de paralelos. Sinto calafrios a percorrerem meus braços. Tenho visões em que sucumbo à fraqueza.
Minha história se arrastou por mais ou menos oito anos.
Sinto uma enorme culpa, mesmo sabendo que seria muito melhor escolher a hipótese do convite ao “faz de conta que isto, hoje, …”. Eu dependeria do artista e não de mim, dona de escolhas tão questionáveis.
Volto a fixar o tríptico verde do cubo, o balcão, a coluna. Ao lado dela, numa parte em que já não restam azulejos, veem-se rachaduras finas.
Mais uma vez, neste dia, alguém fala para mim sem que eu ouça. Uma cabeça de perfil, com o ouvido em evidência, projeta-se na minha direção. Parece dizer:
- Escuta!
E eu escuto.
- Estão todos curiosos. Mas ninguém a seu favor. Não descaia, tudo se ouve, grava e repercute como o seu oposto.
O oposto. Será a regra deste jogo?
Qual é o oposto da frase que se lê à entrada deste edifício, então, qual é?
Não estou certa quanto ao que virá, mas houve um antes, uma entrada até este lugar. Eu passei por uma frase, tenho a certeza.
Esforço-me para virá-la do avesso e… nada.
Meu latim enfraqueceu, a frase não faz sentido para mim.
Tenho receio de que seja a epígrafe da minha história, de que seja uma profecia.
No pilar em que se lê “Iustitia Fons Pacis”, vi também uma fonte banhada de sol, murmurante, tão viva quanto uma criação artificial pode ser.
A agitação da água não produziu em mim um efeito calmante quando passei. Bloqueei tudo por onde passei até agora. Nenhum sinal de vida concreto.»
...
*Retirado do blog Pondera, Pandora - de Betina Ruiz.
Se não quer esperar pelo II e III acto, vá já ao blog ver como acaba o conto - http://www.ponderapandora.blogspot.pt/
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Betina Ruiz é doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Docente na Escola Superior Artística do Porto - Guimarães.

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