segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A entrevista a Sofia Teixeira do blog BranMorrighan

Faz tempo que tínhamos este projecto pensado em conjunto... Eu e a Sofia queríamos mostrar a experiência de quem está deste lado e surgiu a ideia de fazer uma entrevista! O Clube de Leitores convida o blog BranMorrighan e apresenta-o ao seu público. Ao mesmo tempo, eu próprio darei o meu testemunho, partilhando as questões que a Sofia responde neste espaço.

As minhas respostas estão publicadas no BranMorrighan. Fiquem atentos, o link segue no fim desta entrevista.


Rodrigo Ferrão: Como é que te vês a ti mesma e como é que achas que os teus leitores te vêem? Que influência é que esta actividade teve em ti?

Sofia Teixeira: Vejo-me como uma pessoa completamente irrequieta, sempre à procura de mais e melhor em tudo o que faço na vida! Não me costumo contentar com o mediano, sou exigente, mas sempre e em primeiro lugar comigo mesma e só depois com os outros. Não faço ideia de como é que os leitores me vêem. Talvez como alguém um pouco maluco da cabeça que faz milhentas coisas ao mesmo tempo, mas também como alguém que dá o corpo à causa e que se preocupa em tentar dar o máximo possível aos seus leitores.

Ser blogger ajudou-me e contribuiu em muitos aspectos para o meu crescimento enquanto pessoa. Este é um meio diferente, em que temos um ecrã entre nós e os outros, mas que também, com o passar dos anos, me proporcionou experiências ao vivo que decididamente me marcaram. As parcerias editoriais têm sido outra experiência que me tem ensinado muito. Desde a sua receptividade, à forma como interagem – cada uma à sua maneira, umas melhor do que outras –, o valor que dão ao trabalho que desenvolvo no blog e até a forma como algumas o desprezam têm-me ensinado muito. A interacção com os leitores ajudou-me a abrir novos horizontes, a conhecer outro tipo de maneiras de ser e a lidar com os diferentes feedbacks que existem sempre. Resumidamente, esta actividade não tem trazido só coisas boas, mas o que resulta dela só pode ser considerado positivo – uma aprendizagem constante.

RF: De onde vem esta tua paixão pelos livros? Sempre gostaste de ler ou foi um hábito que surgiu mais tarde? Que livros te marcaram?

ST: A sensação que tenho é que desde que aprendi a ler, sempre tive uma curiosidade enorme por descobrir novos mundos. Desde as bandas desenhadas da Disney aos livros da Anita (eram os mais acessíveis a nível económico) sempre me senti feliz com um livro na mão. Com o passar do tempo, principalmente na minha adolescência, comecei a ler menos. A prática desportiva tornou-se intensa ao passar para a alta competição, o tempo era completamente dividido entre as aulas, o basquet, o ser treinadora, as selecções distrital e nacional e, como tal, lia pouco por ano. Por vezes as professoras sugeriam-me alguns livros e emprestavam-mos. Eu devorava-os o mais rápido possível. Porém, devido, mais uma vez, à falta de posses financeiras que me pudessem proporcionar uma maior variedade de leitura, esta limitava-se a esses empréstimos e a alugueres na biblioteca da escola.

Penso que o ponto de viragem foi a entrada para a faculdade. Comecei a ganhar o meu próprio dinheiro, para pagar as propinas e restantes despesas, e sempre que sobrava algum juntava-o para ir esbanjá-lo em feiras do livro das estações de comboio e metro ou alfarrabistas. A partir de então tornei-me numa leitora compulsiva, dentro do possível – entre testes, projectos, aulas e treinos, o andar de transportes tornou-se um ponto de leitura obrigatória.

Veronika Decide Morrer de Paulo Coelho foi o primeiro livro que me marcou verdadeiramente. Era muito nova quando o li e de alguma maneira mexeu bastante comigo. No início do secundário descobri Fernando Pessoa e nunca mais fui a mesma. Dizer que livros me marcaram desde então é como tentar encontrar uma agulha no palheiro. Não por serem escassos, mas porque de alguma maneira em bastantes obras eu consigo encontrar sempre algo que deixa a sua marca. Vou tentar enumerar algumas: O Historiador de Elizabeth Koskova, Os Corvos de Avalon de Marion Zimmer Bradley, Batalha de David Soares, O Livro do Ano de Afonso Cruz (a verdade é que qualquer um deste autor está bem gravado em mim), O Livro do Desassossego de Bernardo Soares (Fernando Pessoa), a Trilogia de Sevenwaters de Juliet Marillier e os outros que me perdoem, mas vou ficar por aqui.

RF: A imagem do blog normalmente transmite um pouco daquilo que o autor lê ou daquilo que ele é. Como é que o BranMorrighan reflecte as tuas preferências literárias? Qual é, na realidade, o teu género literário preferido?

ST: O BranMorrighan é, para mim, um verdadeiro lar. Pode ser um lar virtual, mas ainda assim é um espaço no qual não deposito rodeios ou falinhas mansas, mas sim tudo aquilo que me vai na alma e que quero transmitir. Começou com um amor pela mitologia e cultura celta para depois se expandir e ganhar dimensões que nunca imaginei.

Sei que muita gente tem resistência ao BranMorrighan por causa das cores escuras, e por, como já ouvi tanta gente dizer, parecer que é sobre vampiros ou que é gótico!!! Ahah, confesso que esta última declaração me faz sempre soltar umas belas gargalhadas. O BranMorrighan é como é porque quando o criei, vai fazer 5 anos, era assim que eu o idealizava. Misterioso, mas sincero, envolto numa aura mística, mas acolhedora.

Muitos associam o blog a literatura puramente fantástica, até algumas editoras ainda caem nesse erro, mas leio de tudo um pouco. De tudo, mesmo. Confesso que sempre me fascinei por esse mesmo género, o Fantástico, coincidindo com a minha preferência na maioria das vezes, mas neste momento gosto de variar bastante. Há uns anos era capaz de ler n livros de literatura fantástica seguidos, hoje em dia preciso de variedade, de alternância entre mundos maravilhosos e reais, entre abstenção da realidade em si e o confronto com o que o ser humano é e sente.



RF: Sentes que o teu blog contribui para a divulgação da literatura portuguesa? O autores têm participação activa nesse campo? Achas o público receptivo a escritores portugueses? Qual o teu preferido?

ST: Deixa-me ser bastante directa – É bom que contribua! Desde o início de 2010 que me tenho dedicado verdadeiramente à divulgação de literatura portuguesa e de autores portugueses. Fiz mais de 80 entrevistas desde então, reportagens sobre intervenções de autores portugueses em feiras do livro e outras iniciativas, entre outros. Se acho o público receptivo? Bem, quando eu comecei há quase quatro anos atrás era bem menos do que é agora. Gosto de pensar que de alguma maneira contribuí para isso – seria demasiado ingrato constatar o contrário, mas quem sabe...

Quanto à participação dos autores portugueses na divulgação da sua própria literatura, resumidamente, e talvez um pouco de forma redutora mas realista, podemos categorizá-los de duas maneiras: os que vão lutando e os que vão à luta. Se pensarem bem, uma coisa é bem diferente da outra. Eu cá prefiro os segundos.

Não consigo nomear um autor português preferido, mas consigo nomear uns poucos que à sua maneira deixaram a sua marca em mim de forma irreversível. São eles: Luís Miguel Rocha, Afonso Cruz, Pedro Ventura, David Soares, Filipe Faria e Tânia Ganho. (Não sei se repararam, mas a maioria são homens, isto não dá que pensar no que toca à relação entre género dos autores versus o sucesso literário nacional?).

RF: Já alguma vez pensaste em aventurares-te no mundo da escrita? Abraçarias algum género específico? Como achas que seria a transição de blogger para escritor?

ST: Sim e não! Quer dizer, quem adora ler, na minha opinião, acaba sempre por se tentar imaginar, nem que seja por uma vez, na pele de um escritor. Como seria lerem as tuas palavras? Sentir-se-iam como tu te estás a sentir ao lê-lo? Quão gratificante seria saberes que tens impacto nas pessoas, que elas se revêem no que escreves? Por isso, a ser muito sincera, sim, já. Se acho que tenho talento para isso? Neste momento, não. Já escrevi pequenos textos que, inclusive, vou publicando no blog ou no meu facebook pessoal, mas nada de ambicioso ou tendo em mente um romance. Penso que ainda me falta viver muito, novas experiências e emoções para ser o tipo de escritora que idealizaria ser – aquele que as pessoas ao lerem se sentissem tocadas, que mexesse com as suas emoções e que deixasse sempre vontade de pegar no livro novamente. 

A nível de transição, não acho que tivesse de haver alguma. Ser blogger seria uma ocupação, ser escritora seria outra. Claro que uma teria sempre influência na outra, mas não vejo porque é que ser blogger teria de passar a ser diferente.

RF: O que fazes quando não estás a pensar no próximo post do blog? Imagino que seria bom poder viver só da actividade literária, mas não é esse o teu caso, pois não?

ST: Entre investigar coisas estranhas como epidemologias em redes complexas, genomas e outros ligados à bioinformática; o basquetebol que me ocupa sempre, no mínimo, duas horas por dia, em treino, mais o tempo em transportes; as leituras e os contactos com as editoras; e outros pequenos projectos que tenho sempre a decorrer, tento comer e dormir. Acreditem, não é fácil! Quando queremos o melhor com a máxima precisão e qualidade possível para o nosso blog, preparar os posts requer imenso tempo. São as opiniões, os passatempos, as curiosidades, os posts de teor pessoal, etc etc. Acreditem, ser blogger não me dá o ganha pão, mas consegue ocupar-me quase tanto tempo como a investigação!

RF: O teu blog é visto por muita gente... Imaginavas-te a ser seguida por um público tão vasto? De que forma é que o sucesso obtido nas redes sociais tem vindo a influenciar as tuas leituras e o teu comportamento no blog?

ST: Quando iniciei o blog, postava porque sim. Porque queria, porque me sentia bem com isso. O que é inteiramente actual, mas na altura não... nem sequer pensava em quantas pessoas me visitavam ou tinha sequer acesso às estatísticas do mesmo. Passados quase 5 anos confesso que fico abismada com o crescimento que o meu pequenino teve, principalmente no último ano. Em 2011 o blog teve uma quebra muito grande. A minha disponibilidade temporal e mental era muito reduzida e senti que estava a perder todo o meu público. Em 2012 voltei a apostar em força no blog e desde há um ano foram quase 250 000 visualizações! Isto é chocante e aterrador, no bom sentido, claro, mas ao mesmo tempo rejubilante e gratificante. Acho que a evolução das minhas leituras e do meu comportamento tem sido natural, tendo cada vez mais consciência da responsabilidade que é ter um sítio online que muitos consideram como uma referência. É um peso que não me importo de transportar comigo e que até me ajuda a manter sempre o máximo de rigor e sinceridade possíveis.



RF: Os blogs não são feitos apenas de divulgações e/ou opiniões, mas também de comentários a certos eventos, curiosidades sobre outros. Tens algum/ns preferido/s que queiras partilhar?

ST: Nunca me vou esquecer da minha primeira participação activa e em pessoa no mundo literário. Foi num debate da Feira do Livro de Lisboa em 2010 sobre Literatura Fantástica com mais três editoras de referência do género daquela altura – Saída de Emergência, Gailivro (actual ASA/1001 Mundos) e Contraponto. Também ficarão para sempre gravadas na minha memória as emoções e as experiências vividas aquando da apresentação do livro O Escolhido de Samuel Pimenta na FNAC-Chiado e do Orbias – O Demónio Branco na FNAC-Colombo nesse mesmo ano. Em 2012 tive outra experiência muito engraçada: ir com os autores Pedro Ventura e Vitor Frazão a uma escola básica falar de literatura fantástica e dos seus livros. As reacções das crianças foram memoráveis (embora não totalmente positivas! Sem dúvida que deviam ler mais.).

As minhas opiniões aparecerem em contra-capas de obras ou mesmo como citação principal nos sites das editoras - são outros mimos que me aquecem o coração e me motivam imenso. Aparecer nos agradecimentos de autores como Luís Miguel Rocha (no livro A Mentira Sagrada) deixa-me completamente grata e numa euforia e felicidade imensas. Também ver o meu pequeno manifesto pelas ruas do Porto na iniciativa “Não há feiras, mas há escritores” me encheu de orgulho. 

A Feira do Livro de Lisboa tem sido, sem dúvida, o evento anual que traz a cada edição uma nova surpresa. A visita anual é um facto e o rever autores, que me são tão queridos, tornou-se quase como um ponto de encontro que é certo tanto para mim como para eles e ambos parecemos desfrutar da companhia uns dos outros. Existe melhor sensação que essa? Autores a reconhecerem o teu trabalho e a acolherem-te como se fizesses parte do todo que criam? No entanto, o que me fascina é que desde 2010 há sempre algo que me surpreende ou me apanha desprevenida  Em 2010 participei no tal debate sobre o Fantástico. Em 2011 a Editorial Presença e o autor Filipe Faria convidaram-me a participar na apresentação do livro Oblívio. Em 2012, numa das minhas visitas a essa mesma editora, enquanto falava com um dos autores presentes, ouvi o seguinte, de uma leitora para o escritor Filipe Faria: “Eu vi este livro no blog da Morrighan e como ela falou bem dele, decidi comprá-lo!”. Bem, não sei se foram estas as palavras exactas, mas o que é certo é que de repente está Filipe Faria a dizer “Olha, a Morrighan está aqui ao lado...!” Escusado será dizer que as gargalhadas e algum embaraço surgiram automaticamente. Mas nenhum embaraço é possível de ser descrito como aquele que senti na edição deste ano! Enquanto visitava o autor Alberto S Santos, a simpática jornalista que andava a entrevistar os autores e até alguns leitores, recebeu a indicação que eu já teria lido o mais recente romance do autor, O Segredo de Compostela, e veio ter comigo, de microfone na mão, em directo em plenos altifalantes para toda a feira do livro! Não quero imaginar o que é que a edição de 2014 irá trazer com ela!! 

Recentemente o meu blog voltou a surpreender-me. Ao que parece passaram o meu contacto à Don’Adelaide Produções que me convidou para um remake da sua última produção e por uma noite vesti a pele de investigadora da PSP na resolução de um crime! Foi fantástico. Poderia continuar aqui eternamente porque, felizmente, o meu blog tem sido bastante abençoado no que toca a proporcionar-me momentos inesquecíveis e só posso agradecer a todos os que o visitam, divulgam e apoiam por isso.

RF: O que podemos esperar no futuro do BranMorrighan? Sentes que existe a necessidade de te reinventares constantemente para acompanhar o que as pessoas procuram? Ou continuas ao teu próprio ritmo, vendo no que pode dar?

ST: O mesmo de até agora: elevando a fasquia e tentando com que a palavra se espalhe cada vez mais. Uma ambição que tenho – levar o BranMorrighan além fronteiras. A língua é um obstáculo e penso que começar a escrever em inglês poderia desvirtuar o público nacional, o que não é de todo a minha intenção. Escrevo para nós, para Portugal, para os seus escritores e leitores, mas quero levar esse mesmo nós mais longe. Ambição tola? Talvez. Se vou desistir antes de esgotar as ideias todas? Nem por isso.

Quanto à minha postura vai-se manter a mesma – o blogue é meu, nunca o considerei como puramente literário, e como tal vai ser fiel à autora e à sua determinação em exigir no mínimo o melhor possível. Recentemente recrutei uma amiga minha como colaboradora, a Joana Neto, e com esta entrada nova no meu mundo, espero trazer mais diversidade de opiniões e de textos.

Abrir um espaço aos leitores de interacção ou até de recepção de textos/manuscritos é outro objectivo. De vez em quando abro espaço na agenda para tal, mas quem sabe se não seria engraçado criar um banco de leitores-beta?

Não vou ser uma falsa modesta, mas antes admitir que gostava que o BranMorrighan se afirmasse como um local de referência nacional para os leitores dos vários géneros. Dedico-me de alma e coração ao blog e gostava de o ver crescer ainda mais, quem sabe um dia tornar-se num site mais estruturado, com ainda mais diversidade de conteúdos. Afinal, mais do que um blog literário, considero-o um blogue dedicado à cultura – livros, música, teatro, cinema, etc.

RF: Em poucas palavras... o que dirias para apresentar o teu blog a quem não o conhece?

ST: O BranMorrighan é sobre tudo aquilo o que considero poder contribuir para enriquecer o espírito e a alma: bons livros, música, mitologia, curiosidades genéricas e um pouco de tudo no que toca a cultura. Um espaço aberto a discussão, impregnado de sinceridade e dedicação que pensa sempre no melhor para os seus leitores.


Obrigado Sofia, muito sucesso para o teu espaço! As minhas respostas seguem no teu blog, em: http://www.branmorrighan.com/2013/09/entrevista-rodrigo-ferrao-blogger-do.html

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