sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Neruda: «Grita»

Grita

Amor, quando chegares à minha fonte distante,
cuida para que não me morda tua voz de ilusão:
que minha dor obscura não morra nas tuas asas,
nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro.

         Quando chegares, Amor
         à minha fonte distante,
         sê chuva que estiola,
         sê baixio que rompe.

         Desfaz, Amor, o ritmo
         destas águas tranquilas:
sabe ser a dor que estremece e que sofre,
sabe ser a angústia que se grita e retorce.

         Não me dês o olvido.
         Não me dês a ilusão.
Porque todas as folhas que na terra caíram
me deixaram de ouro aceso o coração.

         Quando chegares, Amor
         à minha fonte distante,
         desvia-me as vertentes,
         aperta-me as entranhas.

E uma destas tardes - Amor de mãos cruéis -,
ajoelhado, eu te darei graças.


*Pablo Neruda, in Crepusculário
Tradução de Rui Lage.

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