sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A paixão por Pedro



A página não oficial de Pedro Paixão, no Facebook, que descobri há algum tempo, está recheada de mimos para os fãs do escritor.
Como este, ao que percebi um texto inédito do próprio PP, que hoje partilho convosco, fã assumida.


"Hoje o Pedro deixou-nos um pequeno texto para vocês. Tem a ver com aquilo que ele sente quando escreve. Esperamos que gostem deste mimo :-)

"Alguém escreve como quem morre.

Quando acaba de escrever atinge-o uma aflição. Ao lavar a loiça, por exemplo, uma pessoa sabe o que está a fazer, conhece os gestos que faz, tem o cuidado preciso para não deixar cair um copo de vidro no chão. Quando está a escrever, não. Há uma parte de si, a parte preciosa, que não sabe o que está a fazer, não acompanha o que as mãos vão escrevendo, espanta-se com o que lê. As palavras vêm de muito longe e partem para muito longe. Num instante passam por ele e desaparecem para sempre. Já os antigos sabiam que as palavras têm asas e voam sem nunca se deixarem aprisionar. Nenhuma palavra fica quieta onde está.
 
Quando acaba de escrever senta-se no sofá e olha fixamente em frente como se estivesse a olhar para uma coisa que não está lá e sente a aflição a chegar.
 
Quando julga saber o que vai escrever, nada escreve. Quando quer achar por onde começar, nada começa. Quando quer dizer uma coisa de uma maneira, escreve-a de uma outra maneira, aquela pela qual nunca previu começar. Quando quer continuar pára até desistir e só então pode continuar. Quando quer acabar, os dedos persistem em trabalhar até que o que se impunha a ser escrito se esgotar. Ninguém sabe o que faz uma pessoa quando está a escrever. Em primeiro lugar para o que escreve. Para ele isso é uma certeza. Escreve sem razão, para ninguém, sem nada esperar. Escreve como quem morre.
 
Sentado no sofá aguarda que a aflição que lhe morde o corpo inteiro o largue. Pode demorar mais tempo ou menos tempo. É outra coisa que ele não consegue controlar. Levanta-se para ir buscar um copo com álcool. Senta-se com ele na mão. Leva-o à boca e dá um pequeno gole. O sabor do álcool ocupa-lhe a boca. Quando desaparece leva de novo o copo à boca e dá um mais um golo. Continua assim até acabar o álcool que o copo continha. Continua a olhar em frente fixamente. Com um ligeiro esforço, um aumento de atenção ao seu corpo, procura saber se a aflição ainda lá está. O melhor seria tomar uma aspirina, um ansiolítico, e um indutor do sono. Engolir tudo ao mesmo tempo. Ou então nada disso. Ele já devia estar habituado, só que está cada vez mais frágil, mais sensível à mais pequena perturbação do espírito.
 
Depois de escrever entra numa zona perigosa, de fronteiras instáveis. É que não sabe onde esteve e agora não sabe onde está. Levanta-se do sofá e carrega num botão. Há meses que a música é a mesma. Não encontra razões suficientes para mudar de disco compacto. A música é sempre igual e diferente. Depende da forma como se sente, da maneira como a ouve. Agora só presta atenção ao violoncelo, agora aos violinos, agora à flauta. Sempre gostou mais de reler do que de ler, voltar a ouvir do que ouvir pela primeira vez, voltar a ver do que ver pela primeira vez, regressar ao mesmo lugar do que descobrir um outro lugar. Volta a sentar-se no sofá e ouve a música como se fosse pela primeira vez. Pouco a pouco regressa ao espaço entre as coisas, as coisas voltam a ser o que eram e a terem o peso que tinham, o tempo começa a passar, primeiro muito devagar e depois a correr como se nunca mais voltasse a asfixiar. Há pouco que se possa mudar.
 
Sente-se cansado. Vai-se deitar. Desliga a luz que está sobre a mesinha de cabeceira do seu lado esquerdo. Subitamente vem-lhe uma frase não sabe de onde. Uma frase imperiosa. Acende a luz e escreve-a num papelinho que encontra. Apaga a luz. Sabe que quando acordar vai encontrar uma frase que a noite consumiu por completo e não vale de nada. Pede a si próprio cinco minutos em que não seja incomodado por nenhum pensamento, nenhuma memória, má ou boa, o que lhe é concedido. Depois adormece a pensar que não consegue adormecer.
 
No dia seguinte vai ter de reescrever tudo de novo."



* Se quiserem também visitar o site oficial do escritor Pedro Paixão é só seguirem o link www.pedropaixao.net






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