segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A AlegriA umA Romã


Não gostava do Verão.
Da alegria do Verão, dos chinelos de enfiar entre o dedo gordo e o indicador do pé, da praia, dos baldes, das bóias, das bolas de futebol e de Berlim, das sardinhadas, as espinhas e as escamas, das moscas e mosquitos, dos bailaricos ao som de música de lírica duvidosa.
Pelo menos pensava, resignado.
Suspirava, aliviado!
Nem Camões nem Pessoa presentes para assistir a este repertório sonoro.
Depois pensava, o que eu gostava de tomar um bagaço com o Pessoa, mesmo que em silêncio, que nem sempre a poesia precisa de palavras, um desejo antigo, um segredo, ridículo porque impossível.
Pensa que as coisas impossíveis são ridículas.
E põe um ponto final aos pensamentos com uma aposta, apostando consigo que nem Bocage, o mais provocador e audaz, esboçaria um sorriso, sobre a lírica da canção.
O Verão no início e os seus ouvidos confrontados, atropelados, duas dúzias de vezes com o sucesso musical da corrente estação estival.
Rimei, pensou, sem graça, que qualquer um sabe rimar e não é por isso que se faz poeta.
O poema.
Provoca-lhe azia chamar à coisa poema.
A quadra.
E, mesmo quadra, um princípio de acidez, porque um insulto às do Aleixo.
Melhor chamar-lhe apenas coisa.
A coisa canta, conta, da liberdade ou licença concedida ao proprietário de um veículo automóvel de usufruto de uma garagem propriedade de uma vizinha, ao caso separada do cônjuge, salientando a utilização da garagem, pelo referido proprietário da viatura, com total liberdade ou à vontade, portanto, sem restrições de horários e nas horas mais impróprias.
Duas dúzias de vezes ouviu do cantor a canção.
A cada nova audição pensava que devia aprender a disparar, talvez comprar uma escopeta.
Alegaria legítima defesa.
E a maldição, a cada Verão uma canção.
Mais uma rima. Fraca. Fraquinha.
A maldição é que, em regra, à terceira audição sabe a letra de fio a pavio, como se a letra, a coisa!, uma bactéria, um verme, um mexilhão, uma carraça ferrada à orelha de um cão.
O barulho do Verão.
A ausência de silêncio.
Até no campo as cigarras.
E, para cúmulo, a indiferença dos gatos.
Tem três gatos que no Verão se transformam em três tristes tigres, recolhidos e ausentes pelas sombras da casa, até os gatos, não é mas parece, fazem as malas e vão os três de viagem.
Pelo que a cada vez que abre caixa do correio, quase todos os dias duas vezes ao dia, a meio da manhã e ao fim da tarde, que o carteiro não é certo na pedalada por não dar cumprimento à máxima se conduzir não beba, que diz não se aplicar a velocípedes não motorizados vulgarmente conhecidos como bicicletas.
Quando abre a caixa do correio espera encontrar um postal, no mínimo um postal, três linhas escritas no verso da fotografia de um monumento, encontra apenas anúncios a promoções de Verão nos super-e-hiper-mercados e carta nenhuma de nenhures, de pessoa nenhuma.
No Verão a solidão maior.
Fecha as janelas, fecha as cortinas, fecha-se no escritório.
O barulho mecânico da ventoinha de pé, como um girassol em metal, a interferir com a leitura, a mexer nas páginas, nos parágrafos, nas linhas, como se interferências na frequência da rádio.
As frases soltas.
Repete a leitura uma, duas, cinco vezes e as frases soltas.
Frases soltas como se fios soltos em meias de vidro.
Ela de saia, quatro dedos abaixo do joelho, um fato saia-casaco verde-musgo, botões de metal dourado, os cabelos loiros, os lábios pintados de vermelho vivo, os olhos azuis.
Ela de boina militar.
Ela a fumar um cigarro, correcção, uma cigarrilha.
O bar cinzento, pardo, de fumos e cinzas, nocturno, urbano.
Num pequeno palco uma orquestra tocava canções de cabaret, alegrava os bêbados e deprimia os sóbrios.

Elle écoute la java
Mais elle ne danse pas
Elle ne regarde même pas la piste
Et ses yeux amoureux
Suivent le jeu nerveux
Et les doigts secs et longs de l’artiste
Ça lui rentre dans la peau
Par le bas, par le haut
Elle a envie de chanter
C’est physique
Tout son être est tendu
Son soufflé est suspendu
C’est une vraie tordue de la musique

A cantora, num insucesso quase comovente, imitava a Piaf, era evidente que maltratava a voz a tabaco e copos de whisky e, apesar disso, os R’s ainda de veludo.
Talvez, se não quisesse ser igual à Piaf, que o mundo não precisa de duas Piaf’s, como se o mundo uma caderneta de cromos, tivesse tido algum sucesso de seu, que em tempo de guerra as canções são imprescindíveis para embalar os corpos sem sono, para afastar os fantasmas.
Dizem que quem canta seus males espanta.
Diz quem conheceu a guerra que não conheceu mal maior.
Antes das palmas, as palmas no momento certo, no fim da canção, as palmas exclusivamente dos ébrios, os ébrios em maior número no bar, a canção foi atravessada por dois aviões e pelo barulho de sirenes.
À passagem do segundo avião percebeu que tinha um fio solto na meia de vidro, depois escusou-se a bater palmas, talvez ao quarto whisky, acendeu outra cigarrilha.
Um fio solto, uma interferência permanente a escrever poesia para lá do joelho da sua perna esquerda.
Pensou que o seu último par de meias, que tinha que comprar uma meias novas.
Pensou que não tinha tempo.
Pensou no contrabando, no mercado negro, que conseguiu comprar dois sabonetes, que não encontrou açúcar, pensou na falta de açúcar, pensou na última vez que comeu uma fatia de bolo, apfelstrudel, ainda morno, depois de sair do forno, o seu preferido, pensou em como era fácil a vida antes da guerra.
Que o mundo em guerra, a maior de todas as guerras e um fio solto numa meia continua a ser um fio solto numa meia.
Inconsequente na sua importância.
Importantíssimo mas inconsequente.
Francesa, nasceu em Lille, filha de pai inglês e mãe austríaca, professora de inglês, integrou a Resistência, morreu, foi morta, três dias antes de os Aliados entrarem em Paris, não chegou ao fim do Verão, ao sossego tépido do Outono.
O Verão também serve para morrer, de amor sobretudo.
Assim que não gostava do Verão.
Como se fosse um crime não gostar do Verão.
Que não é por um sujeito ser inglês que tem que gostar de chá, para mais como se comprimido, com ingestão a hora certa.
Se tivesse dinheiro, pegava nele e nos gatos e viajava, migrava, para um país onde Inverno.
Não tem dinheiro e os gatos não apreciam férias fora de casa.
O que não tem remédio, remediado fica.
Assim ficava.
Resignado à espera, como se a estação uma sala de espera.
À espera do fim do Verão, do regresso do silêncio, do sossego do Outono, das primeiras chuvas, do abrir as janelas, do desligar a ventoinha de pé, do aconchego dos gatos, da alegria de uma romã todos os dias.


Sem comentários:

Publicar um comentário