segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ahab lança Juan Pablo Villalobos em Portugal

Acho que vão gostar de conhecer este Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos. A Ahab lança o primeiro livro deste autor Mexicano, que tem dado que falar um pouco por toda a parte. Fiquem com a sinopse e a opinião de Raquel Ribeiro, do Jornal Público. 

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Em Festa no Covil, a vida quotidiana de um poderoso traficante é vista pelos olhos do filho, um rapaz curioso e com uma inteligência fulminante. Tochtli vive trancado num palácio no meio do nada e adora colecionar chapéus, desvendar mistérios e ler o dicionário todas as noites. Também gosta muito de franceses, que inventaram a guilhotina, e de filmes de samurais. Mas Tochtli tem uma obsessão: completar o seu mini zoológico privado com um raríssimo hipopótamo anão da Libéria. O pai, Yolcaut, consegue tudo o que quer e é bem capaz de lhe fazer a vontade. Festa no Covil, o excelente e promissor romance de estreia de Juan Pablo Villalobos, é a crónica de uma viagem delirante para realizar o desejo de uma criança.



A primeira obra de Juan Pablo Villalobos é uma novela curta e acutilante sobre a perda da inocência

Este covil é uma casa. Ou melhor, “um palácio” (diz o narrador), e nele vivem o filho (Tochtli, personagem principal), o pai (Yocault, narcotraficante, “a mão com os dedos cheios de anéis de ouro e diamantes”), os seus capangas, e alguns empregados. Estes têm nome mas quase não falam. É como se fossem “mudos”. Diz Tochtli: “Quando falo com eles, abrem a boca, como que tentando falar; mas permanecem calados.” Terão medo? Ou serão pouco machos? Porque esta é uma casa (e uma história) de machos. Machos no México, numa família “disfuncional”, cujo pai, traficante riquíssimo, pretende tornar realidade os desejos do seu filho (que, num tédio, vive entre paredes, lendo o dicionário e livros de história) — mesmo que esses desejos sejam excêntricos ou estapafúrdios.

Tochtli é o narrador (na primeira pessoa), mas não sabemos bem a sua idade. Deverá ter mais ou menos dez anos (não terá mais). As repetições, as colecções (de chapéus), as obsessões (quer, porque quer — e porque pode — ter um hipopótamo anão da Libéria no seu zoo privado), a forma como observa os outros (adultos), mesmo num miúdo “precoce”, como ele mesmo se auto-define, são típicos de uma criança inteligente, curiosa e arisca, que apesar de viver submersa no horror do crime e da violência consegue ver o mundo com a inocência necessária para fabular ainda nesta história perturbadora.

O trabalho de depuração da linguagem de Villalobos é brilhante, por isso nos agarramos facilmente àquela voz quase cândida, que vai, gradualmente, perdendo a sua inocência no confronto com a realidade, ainda mesclada, aqui e ali, de humor, inteligência e algum cinismo (Tochtli está, claramente, a crescer; e isso nota-se à medida que se avança no livro).

Ainda que o olhar deste texto seja o de uma criança, não se engane o leitor sobre se Festa no Covil é um livro para meninos. Precisamente porque Villalobos escolheu Tochtli para seu protagonista e narrador, a violência dos assassinatos, do tráfico de droga, da corrupção, do mundo real que entra, naquela casa protegida, pela televisão, torna-se mais gritante, acentuando a crueza dos factos e o colapso moral de um México em decadência. “Desde que voltámos da Monróvia as cabeças cortadas passaram de moda. Agora na televisão vêem-se mais restos humanos. Às vezes, um nariz, outras vezes uma traqueia ou um intestino. E orelhas também”, diz Tochtli, com a mesma frieza com que descreve a história e as circunstâncias dos países, assim: “Parece que o país Libéria é um país nefasto. O México também é um país nefasto. É um país tão nefasto que podes nem arranjar um hipopótamo anão da Libéria. Isso, na realidade, é ser do terceiro mundo.”

E lê-se de um fôlego. Em menos de cem páginas, Villalobos mostra que não é preciso escrever calhamaços para se afirmar como escritor. E ao primeiro romance acertou em cheio: acutilante, preciso, brutal e inocente, Festa no Covil é uma pequena maravilha. Aguardamos o próximo romance em português (já saiu em Espanha, e deverá sair este ano ainda no Reino Unido).


*Raquel Ribeiro, Público. Suplemento Ípsilon.

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