quinta-feira, 21 de março de 2013

Mais três etapas da viagem com Pedro Estorninho

Avancemos agora para a Ibéria. Cervantes e o seu fantástico par. São cento e vinte e seis capítulos que se dividem em duas partes, penso que a primeira escrita em 1605 e a segunda em 1615. Cada vez que dou por mim a pensar ou a afirmar “Isto é provável”, de imediato vem-me à cabeça o engenhoso fidalgo D. Quixote e Sancho Pança, para mim o sonho e a realidade estão ali personificados. Como o caso dos gigantes e dos moinhos, é certo que existiam os dois, óbvio que existiam os dois. Os primeiros porque D. Quixote os criou e colocou lá, a partir do momento em que o Cavaleiro da triste figura, esse poeta, pensou neles, os imaginou e os viu lá no alto, eles passam a existir. Mas também existiam os moinhos, porque Sancho Pança os estava a ver mais às suas velas, e ele sabia que eram moinhos, estavam à sua frente a laborar sem forma de ameaça alguma. É esta a genialidade de Cervantes, existirem moinhos e gigantes, entre outras aventuras deliciosas na empresa destes dois amigos. Este é o termo que encontro, talvez único e quero acreditar que o único para os definir, amigos.


Fernão Mendes Pinto “Minto?”. Li-o pela primeira vez, ainda muito novo, numa edição (suponho que da Sá da Costa) para jovens. Uma edição reduzida ou se quiserem uma versão reduzida. Recordo-me perfeitamente de brincar ao Fernão Mendes e de me aventurar com amigos, e penso que primos, por Malaca, pelo Japão e por aí fora. Anos mais tarde (não muitos) li a versão integral da peregrinação, mais maravilhado fiquei ainda. Anos ainda mais tarde, já na profissão, confronto-me de novo com os textos de Fernão Mendes na companhia de teatro A Barraca, aquando da minha passagem por lá. É um livro histórico, poético à sua maneira, político e literário essencial. Também mais um texto que nos deixará sempre na dúvida, terá alguma vez saído da sua casa no Pragal o bom do Fernão Mendes Pinto “Minto”? Se não saiu, fez com que nós tenhamos saído das nossas.






Padre António Vieira perpétuo migrante. Sei certamente que parte do que tenho de português e de história portuguesa, devo-o ao Padre António Vieira. Entre os sermões que tenho como predilectos estão “Sermão da Sexagésima”, “Sermão do Bom Ladrão” (que tanto deveria ser lido nos dias de hoje) e “Sermão de Santo António aos Peixes”. Para além da sua escrita, foi também uma figura ou persona non grata no nosso canto, certo que com o apoio da Santa Inquisição. Pouco o país quis saber de tal homem, teve grande sucesso no exterior, principalmente nos anos que passou em Roma, o que lhe salvou a vida. Ao escrever estas últimas linhas sinto que falo de 2013, porque será? Certamente que os seus sermões me têm vindo a acompanhar e continuarão a fazê-lo.

Pedro Estorninho

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