segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

a-ver-outros-livros no Metro: Nemésio no canal

Talvez o olhem impávido no mármore e lhe reconheçam ainda a expressão do olhar. Afinal, no tempo em que só havia um canal de televisão, Vitorino Nemésio entrava-nos pela casa adentro aos sábados à tarde com a sua charla "Se Bem Me Lembro". Eu era miúda - e lembro-me bem que pedia para ser das irmãs a primeira a tomar o 'banho grande' de fim-de-semana para poder depois ficar especada, enrolada ainda na toalha, a olhar o pequeno ecrã e aquele homem fascinante e expressivo que falava de coisas que eu ainda não entendia mas que já adivinhava.

Agora ali, na parede da estação do Aeroporto onde o imortalizou o cartoonista António, a quem o Metropolitano de Lisboa encomendou a decoração artística daquele apeadeiro, nada diz. Mas consegue ainda provocar a curiosidade de quem pergunte "e quem era este?", acabando quem sabe, por prestar-lhe a maior de todas as homenagens, lendo-lhe um poema, um ensaio, o romance "Mau Tempo no Canal", a sua obra maior.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (Açores, 19 dezembro 1901 - Lisboa, 20 fevereiro 1978), professor e romancista, historiador e jornalista, poeta e pensador, o homem que disse "Gosto da Horta como de nêsperas" e que definiu, em 1932, o conceito de 'açorianidade'. "Em primeiro lugar o apego à terra, este amor elementar que não conhece razões, mas impulsos; e logo o sentimento de uma herança étnica que se relaciona intimamente com a grandeza do mar."

Reza a história que, pouco antes de morrer, pediu ao filho para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Mas pediu mais: que os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.

Se este facto me comove, a minha alma romântica entusiasma-se mais com a intensidade da paixão daquele que foi, mais do que qualquer outra coisa, poeta. Quando foi internado no hospital onde haveria de morrer, Nemésio tinha em mãos o minucioso trabalho de cópia de um conjunto de poemas para o livro Caderno de Caligraphia, dedicado a D. Margarida Victória, Marquesa de Jácome Correia (a sua Marga) - e todos os poemas que o constituem são de amor e erotismo.

Não me alargo - deixo-vos um poema, só um. Mas, mais do que isso, deixo-vos a chave para (re)descobrir Vitorino Nemésio. Dois links (este e este), recheados de artigos interessantes, dados biográficos, poesia vária, entrevistas, um relato até da última aula que deu. Algo para registar nos favoritos e degustar com calma - ou devorar num ápice digno do entusiasmo que desperta. Quem sabe vos desperte o apetite para ir buscar "Mau Tempo no Canal". Será decerto excelente companhia para as vossas viagens no Metro.

"Outro Testamento

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar
"


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