quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O prémio de Pedro Guilherme-Moreira

Gosto do Pedro Guilherme-Moreira. Assunto arrumado. O que nele me chamou a atenção foram uns poemas que surgiam glosando o mês que chegava e que fui coleccionando religiosamente, ansiosa pelos dias primeiros, chegando mesmo a bater-lhe ao mail quando se atrasava na publicação.

Estive lá quando lançou em Lisboa "A Manhã do Mundo", o seu romance de estreia. E dei por mim a pensar, confesso-o hoje, que a sua poesia me toca mais do que a sua prosa.
Por isso, surpreende-me pouco saber que é o vencedor do Concurso de Textos de Amor 2012 do Museu Nacional da Imprensa, com o poema "Plátano", escolhido entre os mais de 500 submetidos. Mas orgulha-me muito. Como me orgulha a sua amizade.

Pedro Guilherme-Moreira, Setembro 2012
Jardins do Palácio de Cristal, Porto - Foto Ana Almeida
Jornalista que sou, tive que perguntar. Que tal a sensação do prémio? A resposta - privada - foi tão sincera que não resisto a torná-la pública. Sei que me perdoará.
- "Chorei sozinho encostado à porta do armário durante uns segundos, no escuro do meu quarto, e a minha mulher veio ter comigo assim. Expliquei-lhe que ter feito e fazer tudo sozinho na vida dava nisto, a gente emociona-se quando alguém repara e dá coisas :) . Cinco minutos depois já me tratavam outra vez como marido e pai banal, o que é bom, sempre foi e será assim:).
E eu não me sinto mais nem menos por causa disto. Apenas alguma responsabilidade e um certo desassossego, porque a minha poesia nunca foi muito pública, mas foi só o que fiz toda a vida. Lutei para publicar a prosa, nunca a poesia. Não sei se algo muda, mas não muda a minha determinação de ter de vir do editor a vontade de a publicar. Eu não farei nada. Repara que em 2008 eu ainda era um miúdo sem vontade de aparecer, com vontade de fazer e escrever o que tinha de escrever e morrer e só muito depois dar ao mundo as palavras. Foi a certeza de que ser atropelado pelo mundo literário me traria humildade e refocagem que me fez sair."

No seu Facebook explicava esta tarde como surgiu a participação neste prémio.

"Apenas por causa do Pina
Nunca mais, desde a escola - portanto, desde os meus quinze anos - submetera poemas a concurso.
O ano passado vi o nome do Manuel António Pina, entretanto falecido, associado ao Concurso Nacional de Textos de Amor do Museu Nacional da Imprensa - tinha feito parte do júri durante vários anos. Eu teria sempre um profundo pudor em enviar ao próprio Manel qualquer texto, apesar de saber como ele era simples, humilde, acolhedor. Por isso enviei alguns poemas a este concurso, organizado de forma abnegada e apaixonada pelo Museu Nacional da Imprensa, esperando que o Manel os lesse. O estado de saúde não o permitiu, mas o prémio ganhou este ano o nome dele, e o próprio Museu quer que a nova edição e a entrega dos prémios desta fique indelevelmente associado a este concurso.
Tive a sorte de ganhar o primeiro prémio com uma poema sobre o outono dos corpos e a forma como o amor é comunicado a quem fica e por quem fica ou nos sobrevive. O meu egoísmo e mediocridade estão bem patentes nesta prova de amor em quem pede, quase todos os dias, para ir primeiro. Mas eu admito que o estado do mundo se adoça no nosso peito quanto temos alguém a quem dizer:
"(...) só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam.
(...)"
Que sirva a muitos amores - e mesmo a algumas tempestades - em qualquer estádio ou idade."

Eis o poema.

"Plátano

que nem o teu desespero
nas tardes frias de chuva
nem essas mãos a tremer
sobre as cartas que escrevi
nem os plátanos
que te deixam no outono
nem a vigília do inferno
nem a indolência do céu
nem a dor da madrugada
nem dúvidas
sobre o que nasce
certezas
sobre o que morre
nem memórias, por mais doces,
nem absolutamente nada

meu amor te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam
"

PG-M 2012

Factos: o segundo lugar foi para Alberto Pereira, com "Memória até Adamastor", e o terceiro para João Albuquerque, com "Soneto". O júri atribuiu ainda sete menções honrosas: “O nosso pequeno nada...” (Alexandra Abreu Lopes), “Poderia desbloquear a máquina, pf “? (Ana Rita da Silva Freitas Rocha), “A tia Gena” (Deolinda Maria Galvão Rodrigues), “Despimo-nos do corpóreo e incorpóreo” (Isabel Sofia Medeiros), “Episódios de uma rádio Local” (Pedro Ventura), ”Sinto o esmagar de tudo” (Susana Costa) e, imagine-se! também “Rascunho de cena de sexo de um romancista incompetente ou prosa irregular ou poema limiar”, igualmente do Pedro Guilherme-Moreira.

"É um dos meus poemas mais antigos", revelou-me o escritor. "Estava antes em prosa e foi a primeira de todas as prosas que a Maria do Rosário Pedreira [nota: como editora] leu de mim - tendo dito, na altura, 'não é grande coisa'. Tinha razão. E eu que pensava que só assim se devia descrever um acto sexual, e que a literatura precisava de aprender :) . Quando virou poema ficou bem melhor, porque talvez fosse um poema na raiz."

Para podermos avaliar desta possibilidade, deixo-vos este “Rascunho de cena de sexo de um romancista incompetente ou prosa irregular ou poema limiar”. Parabéns, Pedro. Mereces.

"era uma cama de hotel, e como todas as camas de hotel tinha essencialmente lençóis,
serás o desenho da anarquia no linho da manhã
quando os sulcos da cama são tantos quantos os trilhos dos sonhos
e guardarás esses desenhos noite dentro. Só a cortina clara está corrida e a luz apagada e tem de estar lua cheia, é prateado o aluvião do quarto,
víamos os corpos, o teu vestido disseste ao jantar ser musselina,
levantei-o nos braços passando a linha das ancas e as mãos nas costelas e o beijo na boca e tu arquejavas profundamente,
trunquei a poesia ao libertar o gancho do soutien, sabes o que fez as cortinas esvoaçar momentaneamente?
Aconteceu aí o meu primeiro contacto com a tua nudez,
aquela parte maternal do sexo em que nos debatemos com complexos freudianos, os teus seios tinham uma maneira de se insinuar que enlouquecia, toquei-te no mamilo esquerdo com o lábio inferior, deixei a língua percorrer-lhe a superfície,
o teu sabor dentro do meu sangue dentro do meu cérebro
dentro do meu peito,
fechei a boca em sucções caladas, os meus olhos marejados em culpa clamando o deleite, estavas pênsil na fusão dos sentidos,
cabeça para trás, pálpebras fechadas, respiração ausente,
tombaram-me as mãos para as nádegas, a boca para o ventre,
tiraste o vestido pelo topo, vieram os cabelos desalinhar-se nos ombros,
fiz a língua percorrer-te todo o peito, as mãos libertar-te a última peça de roupa, ficaste nua prateada os pêlos púbicos uniformes os olhos claros
(eras um corpo de silêncios)
deixei os dedos passar tangentes à tua pele, primeiro a testa o nariz os lábios o queixo o colo os mamilos, a curva inferior dos seios, o ventre a púbis o verso das pernas que me franqueaste, a linha das nádegas que segui daqui, rasgaste a camisa colaste-me a pele,
a roupa espalhada e nós velejando a volúpia
nas vagas do linho, partiam os barcos, gemiam ao longe os longos avisos,
não há tempestade nem choro plangente mas cantos diferentes por cada caminho, afinal o vento entrou-nos no quarto, a espuma das ondas, o canto da noite, o voo dos pássaros,
o embalo das árvores, a dança do trigo,
parece-me até que o mundo essa noite
se moveu por nós
(Obviamente fizeram amor.
Ela demasiado entregue, ele vazio ao libertar-se da curiosidade da textura dela e do orgasmo na temperatura das suas coxas, ao lembrar que no amor, no verdadeiro amor, não é preciso arrebatar, acabou deitado com a memória de outra mulher na erva acetinada de um pomar sob uma maravilhosa-de-inverno esperando o primeiro fruto em queda.
Ele, deitado ao lado dela, fingia dormir no plácido movimento da estação.)
"


PG-M 2006
in http://ignorancia.blogspot.pt/2010/11/rascunho-de-cena-de-sexo-de-um.html



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