segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Inverno desceu devagar, por Emílio Miranda

Foto: Cláudia Miranda

O Inverno desceu devagar

O Inverno desceu devagar na poalha baça
Das estrelas. Houve quem dissesse que geava
E que o frio fazia tremer a solitária sentinela

Que vigiava o caminho, entre os sombrios bosques
Por onde havia de passar. Mas quando passei, percebi
Que tremia com o receio de que eu fosse o demónio anunciado

Na voz das árvores. Fiz-lhe um sinal apaziguador;
O seu sorriso não foi mais do que um esgar contraído
De quem desconfia da própria sombra…

Quem não confia em si, não confia na alma que o habita…
– pensei –, mas depois refiz o meu juízo, pois sempre
É legítimo o receio de quem è consciente
Da sua mortalidade. Sorri. E a sentinela deixou-me passar
Confiante. E confiante segui ao lugar onde as horas
Me aguardavam à beira-rio, entre o lugar dos sonhos
E das consciências libertas de amarras…

Beleza havia no silêncio das ervas a sonharem
Na clareira onde reunidos os poetas ensaiavam
A solidão. Para que os versos nascessem libertos de outras mãos…
Porque irmãos são prisões e poemas aves desgarradas
Que partem em busca de corações onde lançar
O seu encanto… Enquanto a geada se forma
Dentro dos olhos, cansados de sonharem a primavera…

Emílio Miranda
*autor em destaque esta semana

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