quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

1º Parágrafo: O Conselho do Egipto


O beneditino passou um espanador de penas multicolores pelo exterior do livro; soprou, depois de encher a bochechas, arredondando-as, como o deus do vento nas cartas náuticas, o pó negro que o cobria; abriu-o por fim, com uma relutância que, dadas as circunstâncias, parecia delicadeza, tremor. Graças à luz que se derramava oblíqua entrando pela janela, os caracteres ganharam relevo nas páginas cor de areia: um grotesco carreiro de formigas negras, nítido e seco. Sua Excelência Abdallah Mohamed ben Olman inclinou-se observando aqueles signos; os seus olhos habitualmente cansados, distantes e aborrecidos tinham-se tornado vivos e perspicazes. Voltou a endireitar-se após um momento, procurando com a mão direita na veste: e extraiu umas lunetas com armação de ouro e pedras verdes, imitando uma fina grinalda de flores ou frutos.


* Tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira

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