segunda-feira, 3 de setembro de 2012

1º Parágrafo: Balada da Praia dos Cães


Presente nos autos e em figura própria Elias Santana, chefe de brigada. Indivíduo de fraca compleição física, palidez acentuada, 1 metro e 73 de altura; olhos salientes (exoftálmicos) denotando um avançado estado de miopia, cor de pele e outros sinais reveladores de perturbações digestivas, provavelmente gastrite crónica. No aspecto exterior nada de particular a registar como circulante do mundo em geral a não ser talvez a unha do dedo mínimo que é crescida e envernizada, unha de guitarrista ou de mágico vidente, e que faz realçar o anel de brasão exposto no mesmo dedo. Veste habitualmente casaco de xadrez, calça lisa e gravata de luto (para os devidos efeitos) com alfinete de pérola adormecida; caranguejo de ponteiros florescentes, marca Longines, que usa no bolso superior do casaco com amarra de ouro presa à lapela; farolins de lentes grossas, à toupeira, com comportamento mortiço; carece de capilares no couro cabeludo, o crânio é pautado por cabelinhos mas poupados, e distribuídos de orelha a orelha.


* Não terminando o curso de Matemáticas, em 1945, alistou-se, na marinha mercante, como praticante de piloto sem curso, de onde saiu compulsivamente porque «suspeito de indisciplina e detido em viagem do navio Niassa», conforme auto da Capitania do Porto de Lisboa, de 02, de Fevereiro de 1946.

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