terça-feira, 19 de junho de 2012

Ortega y Gasset: Sobre a Saudade

"Saudade", do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883- 1955), tem meia dúzia de páginas. São apenas "notas de trabalho", como o subtítulo confirma, retalhos do seu pensamento redigidos durante o seu exílio no Estoril.

Deixo-vos alguns retalhos desses retalhos.



"Parece-me um erro, em D. Carolina [Michaëllis] e [Francisco Manuel de] Melo, centrar no erotismo o sentido da saudade, ça fait fausse route! É mais acertado estudá-lo nas suas formas mais humildes. De que coisas humildes se sente saudades? Não esqueçamos que o característico do problema é a penetração, a impregnação de toda a vida pela Saudade. A Saudade erótica é universal e dá-se com parecida frequência em quase todos os povos.
O que não é de todos é senti-la, e senti-la com tanta frequência, por inumeráveis coisas pelas quais os outros não a sentem. Isto leva-nos a fixarmo-nos nas saudades mínimas e a deixar de lado, por pouco interessantes, as máximas que são aquelas a que, não vendo o problema, dedicam a sua atenção Melo e Carolina."

"A Saudade não é um tema português, mas o tema português por excelência. Se outro qualquer pode situar-se na sua periferia é, porventura, a Descoberta. Ambos polarizam a realidade histórica que é Portugal. E resulta que são uma contraposição: a Descoberta é a ânsia de partir, a Saudade a ânsia de voltar.
(...) Portugal é o 'filho pródigo' de si mesmo. O que é nele mais autêntico? O partir ou o voltar?"



 * Edição bilingue
Tradução de Maria J. Monteiro Tavares
Editora Sete Caminhos

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