terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Da mentira", por Filipe Nunes Vicente

Começa assim a crónica de Filipe Nunes Vicente na Revista Ler de Setembro:

"Nem toda a gente sabe saltar à vara, arranjar o chuveiro ou calcular integrais, mas toda a gente sabe mentir. Por outro lado, podemos sempre mentir, mas nem sempre podemos dizer a verdade. Por exemplo, se forem um homem. A vossa mulher sofreu um horrível acidente de viação que a desfigurou. Vão jantar fora pela primeira vez desde o acidente, após meses de cirurgia e fisioterapia e outras maldades necessárias. Ela chega à sala, estão vocês sentados com uma cerveja gelada na mão e pergunta: «Que tal estou?» Ela está um gebo. Retalhada e desfeada, parece a vossa sogra. Pois, mas o que dizem? «Estás linda, meu amor», não é? É. Com as mulheres (esta dicotomia de género é para irritar os fedayn pansexuais) acontece o mesmo. Vão à maternidade ver o bebé da melhor amiga. A cria é horripilante, com um nariz de Mike Tyson e careca, mas elas não se atemorizam: «É muito bonito. Dá vontade de levar para casa.»


(...) No amor, na política e nos tribunais. É onde mais se mente, não é? Claro. É onde a realidade é um estorvo. No boxe, na guerra e no mar não se mente: não ganhamos nada com isso. No amor mentimos porque temos de criar uma imagem do nosso amor; na política mentimos porque a realidade é insuportável; nos tribunais mentimos porque é a nossa pele que está em jogo. O amor, a política e a justiça são três ícones culturais."

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