segunda-feira, 16 de maio de 2011

Orlando e uma quinzena de amor à leitura


“Porque quando a doença da leitura toma conta do organismo, a tal ponto o debilita que o torna presa fácil desse outro flagelo que mora no tinteiro e na pena. O infeliz dedica-se à escrita.” (p.54)

A 28 de Abril começou a 81ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Mesmo com a chuva inicial, romarias se fizeram em busca daque(eeee)les livros que andamos a namorar durante muito tempo, ou de umas últimas pechinchas fabulosas encafuadas em caixinhas com um cartão a dizer [2€/3€/5€].

Há privilegiados que puderam visitar a feira com toda a regularidade que a sede de livros impõe; para todos os outros, fica a excelente reportagem in loco feita pelo nosso companheiro Pedro Ferreira! O que me traz ao Orlando, escolha de Abril, e que, quanto mais li, mais cri que se adequa na perfeição ao mote do mês em que foi lido, pois se há uma constante entre os dois Orlandos (M e F) é mesmo a paixão pelas letras. É esta que impele o nosso personagem a apadrinhar autores, a escrever furiosamente para depois descartar-se do texto escrito, a trazer junto ao peito (já seus belos seios de senhora) os rabiscos primeiro poema, «O carvalho», obra que acompanhará Orlando ao longo dos seus vários séculos de existência.

Esta relação de reciprocidade com uma obra, que se vai construindo a par e passo com o seu autor, fez-me pensar no livro «Contos carnívoros», do belga Bernard Quiriny, editado em Março pela AHAB. Neste livro encontramos contos, de facto, tão suculentos como um naco da melhor carne (perdoem-me, vegetarianos, mas a imagem prevaleceu!). Em um deles, “Recordações de um assassino a soldo”, um artista planeia fundir-se à sua derradeira obra, nela imprimindo-se em sangue, numa última golfada de vida que jorraria dele para a tela que deixara inacabada. Uma imagem poderosa, que marca sobretudo por representar fielmente a relação viceral muitas vezes presente entre o artista-criador e a coisa criada.

Ao acompanharmos a nossa protagonista ao longo de mais de 300 anos de crescimento e transformação, temos a oportunidade de pôr muitos dados adquiridos em causa. Diz Orlando: “Estou a crescer (…) Estou a perder as minhas ilusões, talvez para adquirir ilusões novas.” (p. 136)

E nós crescemos com ela.

È delicioso quando descobrimos, na sequência, que: “Talvez precisemos de acreditar em alguma coisa, e uma vez que Orlando, como já dissemos, não tinha fé nas divindades costumeiras, a sua credulidade ia toda para os grandes homens – com uma distinção, porém. Almirantes, soldados, estadistas, não despertavam nela a menor emoção. Mas, mal pensava num grande escritor, invadia-a uma fé tão ardente que pouco faltava para crer que ele fosse invisível.” (p. 139)

Ao longo destes séculos, Orlando consegue pôr em causa as vivências de género, entre seus sentires alternadamente masculinos e femininos, pensando no papel de cada um na sociedade e nas relações de um com o outro (desde a forma como se relaciona com alguns génios literários do seu tempo, varões por excelência, até às moças de moral duvidosa que conhece em Londres e que a divertem imensamente, provando ser falsa a suspeita egocêntrica dos homens, de que mulheres não se divertiriam entre si, sem uma combinação de cromossomas XY para apimentar as coisas).

Questiona as bases da literatura sob as várias alçadas culturais, da era Isabelina à Vitoriana, sua riqueza e profundidade, quer a partir de seus próprios ímpetos literários (que se metamorfoseiam acompanhando as mudanças verificadas no seu corpo e psiqué), quer das correntes literárias que em seu redor se vão fincando e que culminam numa interessante observação:
“Orlando ficou imensamente desiludida. Durante todos esses anos pensara que a literatura (a sua reclusão, o seu nascimento ilustre, o seu sexo talvez possam desculpá-la) era uma coisa indomável como o vento, escaldante como o fogo, veloz como o raio; uma coisa errante, incomensurável, brusca, e eis que a literatura era afinal um senhor idoso, de fato cinzento, a falar de duquesas. A violência da sua desilusão foi tal que fez saltar o colchete ou botão que fechava o decote do seu vestido […].” (p. 196).

A certo ponto, até me fez lembrar Pessoa, quando:
“[...] Orlando soltou um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e ficou um minuto ou dois a fumar em silêncio. Depois chamou ainda hesitante, como se a pessoa que procurava pudesse ter-se ausentado: «Orlando?» Pois se existem (para arriscar um número) setenta e seis tempos diferentes, todos a pulsar simultaneamente numa só cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – Deus nos acuda! - alojadas num dado momento no espírito humano? Há quem diga que são duas mil e cinquenta e duas. Assim sendo, nada mais natural que ver uma pessoa chamar, logo que se acha sozinha, «Orlando?» (se for esse seu nome), que é como quem diz «Vem, vem! Estou saturada deste meu eu. Quero outro.».” (p. 216)

Por fim, e continuando a pensar em poetas, deixo o Mário de Sá-Carneiro com «Feminina», que compõe estas dualidades de homem que tenta ser mulher (e vice-versa); fica a questão sem fim: o que é ser uma mulher, afinal?

Feminina

Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins» - muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...

Ah, que te esquecesses sempre das horas
Polindo as unhas -
A impaciente das morbidezas louras
Enquanto ao espelho te compunhas...

A da pulseira duvidosa
A dos anéis de jade e enganos -
A dissoluta, a perigosa
A desvirgada aos sete anos...

O teu passado, sigilo morto,
Tu própria quasi o olvidaras -
Em névoa absorto
Tão espessamente o enredaras

A vagas horas, no entretanto,
Certo sorriso te assomaria
Que em vez de encanto,
Medo faria.

E em teu pescoço
- Mel e alabastro -
Sombrio punhal deixara rasto
Num traço grosso.

A sonhadora arrependida
De que passados malefícios -
A mentirosa, a embebida
Em mil feitiços


(«Poemas Completos», Assírio & Alvim, 2001)

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