domingo, 29 de maio de 2011

A cidade líquida e outras texturas, Filipa Leal

Li este livro de poemas de Filipa Leal e foi uma agradável caminhada. Por uma(s) cidade(s), pela imaginação pautada por uma escrita inteligente. De todos os poemas, este é o mais forte (talvez o mais universal):


Se ao menos a morte

'Ela morria tantas vezes
em tiroteios à porta de casa
que já não sabia morrer para sempre
assim
de uma vez só.
Se ao menos se marcasse um dia
para a morte, uma hora certa
como no dentista
que apesar de tudo
nos faz esperar
onde apesar de tudo
não sabemos quando será a nossa vez.
Se ao menos a morte tivesse revistas
e gente na sala de espera
não estaríamos tão sós
tão vivos nessa ideia final
nesse desconforto.
Poríamos o nome na lista
quando estivéssemos prontos
sabendo que seria fácil desmarcar
marcar para outro dia
ou simplesmente
não comparecer.
Depois, ficaríamos com a dor,
com o terror
de passar sequer naquela rua
como ela à porta de casa.
Ela que morria tantas vezes
porque morria de medo de morrer.'

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