sábado, 6 de novembro de 2010

Fado da Doroteia


Doroteia deixou-me em dores.
Doroteia deixou-me em prantos.
Partiu-me o coração e a alma,
ai... deixou-me vazio o corpo.

Doroteia levou a roupa,
levou o gato, os sapatos,
levou-me o caleidoscópio
e o meu velho cachimbo de ópio.

Doroteia cantava fados,
cantigas de amor-ciúme,
uma voz de mar e açafrão,
num corpo de ventos e lume.

Doroteia saiu de casa.
Deixou-me um adeus num papel.
Deixou-me os seus chinelos velhos.
Deixou-me do dedo o anel.

Doroteia não soube amar,
a mim que tanto bem lhe quis,
a mim que tanto bem lhe quero,
pois da minha vida era o sal,
da minha vida era o tempero.

E desde que se foi embora,
que chove no meio da sala,
e eu passo os dias no quarto,
a comer poemas de amor,
acompanhados a boleros.

Eu sei que sou um sonhador,
sei que ela não mais vai voltar.
Mas...
... enquanto chover na sala
eu não vou sair do quarto.
... e a ler poemas de amor
vou dar de comer à dor.




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