terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pergunta ao Pó, John Fante

John Fante foi-me trazido ainda este ano. Lido de fio a pavio e com bastante agrado. Com prefácio de Charles Bukowski, que abre as hostilidades desta maneira: 'Fante era o meu Deus'.

Este é mais um belíssimo trabalho da editora Ahab. Confesso que ainda não li um mau livro desta editora - lançada no ano passado e que conta com excelentes traduções. Esta é fantástica, traduzida por Rui Pires Cabral.

Um óptimo prefácio, com frase curiosa umas páginas antes - do também grande - Herman Melville (no caso, em Moby Dick): "There are some enterprises in which a careful disorderliness is the true method."


Arturo Bandini é um herói anónimo. Quer ser escritor, dê por onde der. Chegado a Los Angeles - cidade muito bem enquadrada ao longo da narrativa - ocupa uma pensão velha e cheia de estranhas pessoas. Sobrevive com pouca comida - que partilha com o vizinho - e de leite roubado. Miseravelmente!

O talento tarda a ser reconhecido e as asneiras de Arturo não permitem que o intelecto funcione na sua melhor forma. Até que aparece uma musa inspiradora, de seu nome Camilla.

Camilla é tudo aquilo que Arturo não é: bela, com carro próprio e empregada de bar. Mexicana, morena e exótica. Como diz - e bem - o breve resumo da história no final do livro, "a paixão que a um tempo o arrebata transforma-se, pouco a pouco, numa destrutiva relação de amor-ódio que vai conduzir a um trágico desenlace."

Apesar do fim inevitavelmente fatal, esta foi das histórias mais cómicas que li. Dei por mim a rir-me das trapalhadas deste personagem extraordinário. É ele que enche o livro de tamanha emoção.

Querem descontrair? Este vale mesmo a pena!

4 comentários:

  1. Em Dezembro de 2001 esta personagem Arturo bandini acompanhou-me numa viagem a Toronto e por momentos, desejava ser como ele...dizer aquilo que ele dizia, ser um espírito livre porque o comportamento é regido pelas suas leis internas por muito cruéis que possam ser...É um mestre que se necessita para subir degraus...John Fante será sempre para o leitor curioso uma descoberta de uma caverna esquecida cheia de estalactites belas formadas pelo tempo...e esquecidas por todos, tal como ele, Fante.

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  2. Sem dúvida, caro anónimo... Esta foi das personagens mais trapalhonas e peculiares que encontrei em anos de leituras. E John Fante esteve esquecido durante anos! Para a humanidade, é uma perda enorme não acompanhar livros como este!
    Quanto a Bandini, o que dizer? Um homem cheio de pinta, sem a ter nenhuma!!

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  3. Quero dar o meu contributo...
    A verdade é que se trata de um livro surpreendente. Descarnado, Bandini é a personagem perfeita, o anti-herói perfeito. Quanto ao esquecimento de Fante... Em Espanha, Fante é um autor lido e reconhecido, com várias obras traduzidas.
    Espero que a ahab continue com o excelente trabalho que tem feito na área editorial... E que nao nos deixe apenas com "um Fante".

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